sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A Festa Brava na Terceira


A FESTA BRAVA NA TERCEIRA
(Breve história da sua origem)

Tourada na Ladeira de São Bento
Angra do Heroísmo


Desde os primórdios do descobrimento das Ilhas açorianas, aquando da descoberta da terceira ilha, densa em florestação como as demais, foi largado gado vacum como outras tantas espécies domésticas, que se tornaram selvagens e típicas desta região, causadas pelas condições climatéricas e demográficas das nossas ilhas. Com o cruzamento de diversas raças de gado vacum em regime de total liberdade, a quando do povoamento desta ilha, as gentes oriundas do centro /sul do país, encontraram uma espécie pequena em dimensão e bravia devido ao seu estado selvagem. Imaginando a época vivida, século quinze, depressa se tira a conclusão de como os povoadores capturavam e matavam as reses para a sua alimentação.




Tourada no Largo de São Bento
Angra do Heroísmo
Os antigos diziam que a carne de um animal cansado era mais tenra e suculenta do que a de um animal descansado, ainda no tempo do meu avô se tomava como certa esta sentença, sendo assim e depois de serem laçados e capturados, era nos adros das Igrejas que se corriam e cansavam os animais bravios de então, para depois se proceder à sua matança. Esta tradição não era só típica da Ilha de Jesus Cristo, era praticada um pouco por todas as restantes ilhas que compõe o arquipélago açoriano, esta manifestação foi proibida pelo Bispo de Angra nas “Constituições Sinodais do Bispo de Angra” de 1559 onde se proibia de correr toiros nos adros das igrejas.

Tourada no Pico da Urze
Angra do Heroísmo
Com o passar do tempo, por ser Angra uma cidade nobre e burguesa e por ser o povo terceirense um entusiasta das festas populares, se continuou esta pratica de correr os toiros nas ruas de toda a ilha.

O culto do Divino Espírito Santo propagou-se por todo o arquipélago devido à fé inabalável dos açorianos na Terceira Pessoa da Santíssima Trindade face às atrocidades do tempo, da vida e da terra. No caso da Ilha Terceira foi-se associando o religioso e o profano advindo daí ao que hoje se assiste nas festas profano religiosas um pouco por toda a Ilha. A tourada à corda evoluiu com o passar dos tempos, mas nem sempre a tourada à corda foi o que hoje se vê e se assiste nas estradas da Ilha Terceira, alguns escritores da época relataram algumas atrocidades cometidas pelos homens de então com os seus bordões de aguilhões montados. Como tudo na vida a evolução do homem e da cultura fizeram com que o espectáculo chegasse até aos dias de hoje e se tornasse no ícone da tauromaquia insular.

Tourada no Largo do Posto Santo
Angra do Heroísmo
Ao mesmo tempo que se desenvolveu a tauromaquia de rua, as touradas de praça, como são chamadas aqui para as diferenciar das outras, mantiveram-se na Ilha Terceira pela concentração da nobreza na capital da Ilha e pelo porto a ela associado, porto este importante na rota da prata. Os espectáculos e jogos taurinos eram realizados na praça principal da cidade de Angra, a chamada hoje Praça Velha, onde se colocavam palanques em volta, inseridos num rectângulo. Aí os nobres mostravam a sua destreza a cavalo alanceando os toiros, outras danças executadas por angrenses alegravam as festas, antes faziam-se cavalhadas em honra de São João, perfilavam-se duas alas de cavaleiros, uma para a Rua de São João e outra no sentido descendente da Rua da Sé, aí se celebrava no canto destas duas ruas, onde outrora existiu uma capela, uma missa em honra do patrono das hoje festas maiores do Concelho de Angra do Heroísmo.

Praça de Toiros de São João
Angra do Heroísmo


Sempre houve da parte dos terceirenses uma paixão frenética pela festa dos toiros, desde os espectáculos de rua aos de praça, mas é nos primeiros que reside a sua maior aficion.
Praças de toiros houve várias, a da Canada do Barreiro, a do Espírito Santo na Miragaia, a de São João, onde hoje se situa o Centro Cultural de Angra, chegando até hoje e já com vinte e cinco anos de existência a Monumental Praça de Toiros Ilha Terceira.

Enfim a festa brava e os terceirenses juntos desde os primórdios da existência humana nestas ilhas atlânticas.




Fonte: Duarte Bettencourt in "Terceira Taurina"




Tourada no Largo de São João de Deus
Angra do Heroísmo
Tourada à corda, toirada à corda ou corrida de touros à corda, é um divertimento tauromáquico tradicional nos Açores, com particular expressão na ilha Terceira, acreditando-se ser a mais antiga tradição de folguedo popular do arquipélago. A modalidade tauromáquica é específica dos Açores e caracteriza-se pela corrida de 4 touros adultos da raça brava da ilha Terceira ao longo de um arraial montado numa rua ou estrada, num percurso máximo que regra geral é de 500 m. O animal é controlado por uma corda atada ao seu pescoço (daí a designação do tipo de tourada) e segura por 6 homens (os pastores) que conduzem a lide e impedem a sua saída para além do troço de via estipulado. A lide é conduzida por membros do público, em geral rapazes, embora seja admissível a presença de capinhas contratados. Após a lide, os animais são devolvidos às pastagens sendo repetidamente utilizados, embora com um período de descanso mínimo de 8 dias.



Praça de Toiros do Espírito Santo
Angra do Heroísmo
O primeiro registo conhecido da realização de uma tourada à corda data de 1622, ano em que a Câmara de Angra organizou um daqueles eventos, enquadrado nas celebrações da canonização de São Francisco Xavier e de Santo Inácio de Loiola. Contudo, presume-se que as corridas de touros à corda nos folguedos populares já ocorressem há muito, o que justifica a inclusão daquele evento numa festividade oficial.




Praça de Toiros de São João
Angra do Heroísmo
A realização de corridas de touros à corda foi adquirindo ao longo dos tempos um conjunto de características, fixadas por normas e regras de cariz popular que hoje se encontram legalmente codificadas. Aquelas normas estabelecem os procedimentos de saúde e bem-estar animal a seguir em relação aos touros, os sinais correspondentes aos limites do arraial (riscos no chão), os sinais a utilizar na largada e recolha do touro (foguetes). Para protecção dos espectadores os touros não estão "em pontas", isto é, têm sempre a ponta dos chifres cobertas por algo que proporcione a protecção do espectador, as regras a seguir na armação dos palanques e na protecção dos espectadores e ainda a actuação dos capinhas (toureiros improvisados que executam sortes recorrendo a um guarda-sol, uma varinha, um bordão enconteirado ou uma samarra).


PRAÇA DE TOIROS
 DA ILHA TERCEIRA

Inaugurada em 1986




MONUMENTO AO TOIRO






Sobrescrito de 1º. dia comemorativo da inauguração do
Monumento ao Toiro e do 45º. aniversário da
Tertúlia Tauromáquica Terceirense

Selo Personalizado


Bilhete Postal de Boas Festas
Casa Agrícola José Albino Fernandes

Sobrescrito comemorativo da 1ª. Corrida, no Campo Pequeno, de
uma ganadaria açoriana (Rego Botelho)

Selo Personalizado

Bilhete Postal comemorativo da
lide no Campo Pequeno


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Santos Populares - Santo António



Santo António





Santo António nasceu em Lisboa em data incerta, numa casa, assim se pensa, próxima da Sé, às portas da cidade, no local onde posteriormente se ergueu a igreja sob sua invocação. A tradição indica 15 de agosto de 1195, mas não há documento fidedigno que confirme esta data. Também foi proposto o ano de 1191, mas, segundo um seu biógrafo, o padre Fernando Lopes, as contradições em sua cronologia só se resolveriam se ele tivesse nascido em torno de 1188. Tampouco se sabe com certeza quem foram seus pais. Nenhuma das biografias primitivas os citam, e somente no século XIV, a partir de tradições orais, é que se começou a atribuir ao pai o nome de Martim ou Martinho de Bulhões, e à mãe, o de Maria Teresa Taveira.

Fixando-se esses nomes na memória popular, e com a crescente fama do santo, não custou a biógrafos tardios atribuírem também aos seus pais uma dignidade superior. Do pai foi dito ser descendente do celebrado Godofredo de Bulhões, comandante da I Cruzada, e da mãe, que descendia de Fruela I, rei de Astúrias, mas tal parentesco nunca pôde ser comprovado. A forma de seu nome de batismo é igualmente obscura, pode ter sido Fernando Martins ou Fernando de Bulhões.

Fez os primeiros estudos na Igreja de Santa Maria Maior (hoje Sé de Lisboa), sob a direção dos cónegos da Ordem dos Regrantes de Santo Agostinho. Como era a prática da ordem, deve ter recebido instrução no currículo das artes liberais do trivium e do quadrivium, o que certamente plasmou seu caráter intelectual.

Ingressando ainda um adolescente como noviço da mesma Ordem, no Mosteiro de São Vicente de Fora, iniciou os estudos para sua formação religiosa. A biblioteca de São Vicente de Fora era afamada pela sua rica coleção de manuscritos sobre as ciências naturais, em especial a medicina, o que pode explicar as constantes referências científicas em seus sermões.

Poucos anos depois pediu permissão para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a fim de aperfeiçoar sua formação e evitar distrações profanas, já que era constantemente visitado por amigos e parentes.

Coimbra era na época o centro intelectual de Portugal, e ali se deve ter envolvido profundamente no estudo das Escrituras e nos textos dos Padres da Igreja. Nesta época entrou em contato com os primeiros missionários franciscanos, chegados em Portugal em 1217, e que estavam a caminho do Marrocos para evangelizar os mouros. Sua pregação do Evangelho no espírito de simplicidade, idealismo e fraternidade franciscana, e sua determinação missionária, devem ter tocado o sentimento de Fernando. 

Entretanto, uma impressão ainda mais forte ocorreu quando os corpos desses frades, mortos em sua missão, voltaram a Coimbra, onde foram honrados como mártires. Autorizado a juntar-se a outros franciscanos que tinham um eremitério nos Olivais, sob a invocação de Santo António do Deserto, mudou seu nome para António e iniciou sua própria missão em busca do martírio. 


Por essa altura, decidiu deslocar-se ele também a Marrocos, mas, lá chegando, foi acometido por grave doença, sendo persuadido a retornar. Fê-lo desalentado, já que não havia proferido um único sermão, não convertera nenhum mouro, nem alcançara a glória do martírio pela fé. No regresso, uma forte tempestade arrastou o barco para as costas da Sicília, onde encontrou antigos companheiros. Ali se quedou até a primavera de 1221, dirigindo-se com eles então para Assis a fim de participarem do Capítulo da Ordem - o último que seria feito com a presença do fundador. Em Assis encontrou-se com São Francisco de Assis e os seus primeiros seguidores, um evento de grande importância em sua carreira. Sendo designado para um eremitério em Montepaolo, na província da Romagna, ali passou cerca de quinze meses em intensas meditações e árduas disciplinas.

Pouco depois aconteceu uma ordenação de frades em Forlí, quando deixou o isolamento e para lá se dirigiu. Até então os franciscanos não sabiam de sua sólida formação, mas faltando o pregador para a cerimónia, e não havendo nenhum frade preparado para tal, o provincial solicitou a António que falasse o que quer que o Espírito Santo o inspirasse. Protestou, mas obedeceu, e dissertando para os franciscanos e dominicanos lá reunidos de forma fluente e admirável, para a surpresa de todos, foi de imediato destinado pelo provincial à evangelização e difusão da doutrina pela Lombardia. Entretanto, a prática franciscana desencorajava o estudo erudito, mas em Novembro de 1223 o papa Honório III sancionou a forma final da Regra da Ordem Franciscana, onde uma formação mais aprimorada se tornou autorizada, desde que submissa ao trabalho manual, à prece e à vida espiritual. Recebendo a aprovação para a tarefa pastoral do próprio Francisco, fixou-se então em Bolonha, onde se dedicou ao ensino da teologia na universidade e à pregação. Deslocando-se em seguida para a França, ensinou nas universidades de Toulouse e Montpellier, passando também por Lomoges.

Em 1226 assistiu ao Capítulo de Arles, e em outubro do mesmo ano, após a morte de Francisco, seviu como enviado da Ordem ao papa Gregório IX, para apresentar-lhe a Regra da Ordem. Em 1227 foi indicado provincial da Romagna e passou os três anos seguintes pregando na região, incluindo Pádua, para audiências cada vez maiores. Nesse período colocou por escrito diversos sermões. Em 1230 solicitou ao papa dispensa de suas funções como provincial para dedicar-se à pregação, reservando algum tempo para a contemplação e prece no mosteiro que havia fundado em Pádua. Sempre trabalhando pelos necessitados, envolveu-se também em questões políticas, a exemplo de sua viagem a Verona para pedir a libertação de prisioneiros guelfos feitos pelo tirano gibelino Ezzelino, e em 1231 persuadiu a municipalidade de Pádua a elaborar uma lei que impedia a prisão por dívidas se houvesse a possibilidade de compensação de outras formas.
   

Pouco depois da Páscoa de 1231 sentiu-se mal, declarou-se hidropisia e ele deixou Pádua para dirigir-se ao eremitério de Camposanpiero, nos arredores da cidade. Seus companheiros ergueram-lhe uma cabana no alto de uma árvore, onde permaneceu alguns dias. Percebendo que a morte estava próxima, pediu para ser levado de volta a Pádua, mas apenas tendo alcançado o convento das clarissas de Arcella, subúrbio de Pádua, ali faleceu, em 13 de junho de 1231. As clarissas reclamaram seu corpo, mas a multidão acabou sabendo de seu passamento, tomou-o e o levou para ser sepultado na Igreja de Nossa Senhora. Sua fama de santidade era tamanha que foi canonizado logo no ano seguinte, em 30 de maio, pelo papa Gregório IX. Os seus restos mortais repousam desde 1263 na Basílica de Santo António de Pádua, construída em sua memória logo após sua canonização.

Quando sua tumba foi aberta para iniciar o processo de translado, sua língua foi encontrada incorrupta, e São Boaventura, presente no ato, disse que o milagre era prova de que sua pregação era inspirada por Deus. E incorrupta está até hoje, em exposição na Capela das Relíquias da Basílica.

Foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Pio XII em 16 de Janeiro de 1946 e é comemorado no dia 13 de Junho.

Entre suas várias qualidades, chamou a atenção de seus contemporâneos seu admirável dom como pregador. Muitas descrições de época referem o fascínio que sua fala exercia sobre as multidões de pessoas simples e também sobre clérigos doutos, e embora o efeito de sua oração a viva voz não possa mais ser recuperado, seu estilo e os conteúdos que abordava podem ser conhecidos em parte através dos 77 sermões que sobreviveram e constam em sua obra publicada em edição crítica, Sermões Dominicais e Festivos, e que são considerados autênticos, conforme disse José Geraldo Freire. São textos eloquentes, persuasivos, cheios de zelo messiânico, sendo frequentes a defesa do pobre e a reprimenda do rico, e o combate às heresias de seu tempo, como as dos albigenses e valdenses, com uma eficácia tanta que lhe foi dado o apelido de malleus hereticorum (o martelo dos heréticos).


1895 - Santo António
Série Açores
Obliterada em Angra do Heroísmo

Embora a tradição atribua seu dom à inspiração divina, não é possível deixar de considerar o importante papel que sua formação erudita desempenhou neste aspecto de sua vida e obra. A análise das referências que fez em seus escritos, junto com o levantamento das fontes literárias presentes em seu tempo nas bibliotecas que frequentou, especialmente a de Santa Cruz, atestam sem sombra para dúvidas que sua preparação intelectual foi ampla e profunda. Além de um conhecimento detalhado da Bíblia, dos escritos dos Padres da Igreja e outros escritores cristãos, são encontradas citações de clássicos como Aristóteles, Cícero, Catão, Sócratres, Dioscórides, Donato, Eliano, Escribónio, Euquério de Lião, Festo Solino, Filão de Alexandria, Tíbulo, Sérvio, Públio Siro, Juvenal, Plínio, o Velho, Varrão, Sêneca, Flávio Josefo, Horácio,Ovídio, Lucano e Terêncio. Seu conhecimento das ciências naturais ultrapassa em muito o currículo regular das artes liberais medievais, aprofundando-se em áreas como a medicina, a física, a história natural, a cosmografia, mineralogia, zoologia, botânica, astronomia e óptica. Nas palavras de José Antunes,


"Santo António de Lisboa, embora muito festejado e venerado como santo pelo povo, é menos conhecido como um homem de cultura literária invulgar e como um verdadeiro intelectual da Idade Média. Reveladora dessa cultura ímpar, é a sua obra escrita, cheia de beleza e densidade de pensamento, como nos testemunham os seus Sermões, autênticos tesouros da Literatura e da História. Vasta, profunda, extraordinária, a respeito da Sagrada Escritura. Ampla, variada e bem apropriada nas transcrições dos Padres da Igreja e dos Autores Clássicos. Impressionante, para o tempo, não apenas pelo conhecimento que revela das ciências naturais e das humanidades, mas igualmente pelo erudito discurso sobre noções jurídicas, como Poder, Direito e Justiça".

Naturalmente, era fiel à ortodoxia cristã. Apesar de sua extensa cultura profana, considerava a Escritura sagrada a fonte da ciência superior, da verdadeira ciência, da qual todas as outras eram meras servas e simples coadjutoras no trabalho da Salvação. Por isso deu grande importância a uma boa exegese do texto sagrado, privilegiando a extracção do seu sentido moral. Nota-se ainda em sua obra alguns dos primeiros sinais de um progressivo abandono do pensamento medieval, que apresentava o homem e o mundo como desprezíveis e fontes do pecado, abrindo-se a uma apreciação mais positiva da vida concreta e do relacionamento humano, entendendo o ser humano como uma maravilhosa obra divina.

Contudo, é de dizer que na forma como chegaram, os ditos sermões são antes um manual didático para os noviços do que transcrições de sermões verdadeiramente proferidos. Foram produzidos para seus alunos, para instruí-los na arte predicatória, a fim de que depois eles pudessem converter com sucesso os pecadores e infiéis à fé cristã. Apesar disso, eles possuem em seu conjunto pouca ordem sistemática.

Os sermões são ainda um precioso documento de época, muitas vezes fazendo alusões às transformações sociais e económicas que ocorriam durante aquele período, atestando o crescimento das cidades, o florescimento das atividades artesanais e do comércio, o surgimento das corporações de ofícios, as diferenças de classes. Além dos conteúdos sacros, que ainda preservam seu caráter inspirador, tais alusões - onde surge aguda crítica social na condenação da avareza, da usura, da inveja, do egoísmo, da falta de ética na administração pública, dos falsos moralistas e hipócritas, dos maus pastores de almas, do orgulho dos eruditos, dos ricos ensimesmados em sua opulência que oprimem e excluem os pobres do tecido social - são responsáveis pelo valor perene e atual de seus escritos, sendo passíveis de imediata identificação com muitas circunstâncias e contradições da vida contemporânea.

É considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é padroeiro de Portugal, e é invocado para achar-se coisas perdidas, para conceber-se filhos, para evitar naufrágios, para conseguir casamento.

A devoção popular o colocou entre os santos mais amados do Cristianismo, cercou-o de riquíssimo folclore e lhe atribui até os dias de hoje inúmeros milagres e graças. Igrejas a ele consagradas se multiplicam pelo mundo, tem vasta iconografia erudita e popular, a bibliografia devocional que ele inspira é volumosa, e em sua homenagem uma quantidade incontável de pessoas recebeu o nome António, além de inúmeras cidades, bairros e outros logradouros públicos, empresas e mesmo produtos comerciais em todo o mundo também terem seu nome.

Na tradição lusófona Santo António está acima de todos em prestígio. Sua veneração foi levada de Portugal para o Brasil, onde enraizou rápido e também dominou o coração do povo. Era tanta a familiaridade que o santo inspirava, que passou a ser uma espécie de "propriedade privada" de todos. Como relatou Grillot de Givry, "não há casa que o não venere no seu oratório e não satisfeita ainda com isso, a comum devoção dos fiéis, cada um quer ter só para si o seu Santo António". Estava em toda parte: "nos nichos de pedra, pintado em azulejos, a guardar as casas, em caixilhos de seda à cabeceira da cama a vigiar-nos o sono, nos escapulários e bentinhos junto ao peito, a acautelar-nos os passos, esculpido e pintado para preservar dos perigos, pintados nas caixas de esmola, nos santuários e oratórios". Também era invocado pelos senhores para recuperar escravos fugidos.

A mesma familiaridade criou práticas esdrúxulas no culto popular. Se um pedido não era atendido, a imagem do santo podia ser submetida a torturas e castigos. Deitavam-na de barriga para o chão e punham-lhe uma pedra em cima; escondiam-na num poço escuro, retiravam-lhe o Menino Jesus dos braços, ou arrancavam-lhe o resplendor. Acreditava-se que o castigo acelerava a concessão da graça, e explicavam a violência dizendo que em sua juventude o santo desejara morrer martirizado em nome da fé. Luminares do clero, como o Padre Vieira, também de certa forma reforçavam essas crenças. Num sermão disse:
   
"Não haveis de pedir a Santo António como aos outros, nem como quem pede graça e favor, senão como quem pede justiça. E assim haveis de pedir a Santo António: não só como a quem tem por ofício deparar tudo o perdido e demandado como a quem deve e está obrigado a o deparar. E senão dizei-me: por que atais e prendei esse santo, quando parece que tarde em vos deparar o que lhe pedis? Porque deparar o pedido em Santo António não só é graça, mas dívida. E assim como prendei a quem vos não paga o que vos deve, assim o prendeis a ele. Eu não me atrevo nem a aprovar esta violência, nem a condená-la de todo, pelo que tem de piedade".
É um dos santos honrados nas popularíssimas Festas Juninas e diversos costumes folclóricos estão ligados ao santo. a título de exemplo, no Brasil moças casadoiras retiram o Menino Jesus das estátuas e só o devolvem quando arrumam casamento; uma prece especial, os "responsos", são feitas para que ele ajude a encontrar objetos perdidos; no dia de sua festa muitas igrejas distribuem um pão especialmente abençoado, os "pãezinhos de Santo António", que deve ser guardado em uma lata de mantimentos para que não falte alimento na casa.


Ele teve inclusive uma brilhante carreira militar póstuma. Inúmeras cidades da Espanha, Portugal e Brasil lhe conferiram títulos militares, condecorações, insígnias e outras honrarias, iniciando-se o curioso hábito quando o regente Dom Pedro ordenou em 1668 que ele fosse recrutado e assentasse praça como soldado raso no II Regimento de Infantaria em Lagos, sendo promovido sucessivamente a capitão e coronel. Com o posto de tenente-coronel, sua imagem foi levada pelo XIX Regimento de Infantaria em Cascais à frente dos combates da Guerra Peninsular, recebendo depois uma condecoração. Dom João VI, após o feliz desembarque no Brasil em sua fuga da invasão napoleónica, o nomeou sargento-mor, promovendo-o depois a tenente-coronel. 

Fonte: Wikipédia
 
 
Ermida de Santo António no Monte Brasil
Angra do Heroísmo

Desenho de Emanuel Félix


Situada no interior das muralhas da fortaleza do Monte Brasil, fazia parte da Quinta de Regalo, uma zona de recreio criada pelo governador espanhol de então, D. Gonçalo Mexia, por volta de 1615, na encosta leste do monte voltada a Angra.
 
A Casa de Regalo ainda existe, também, mas a estrutura da quinta desapareceu.
 
A festa a Santo António originava romarias e incluiu, em algumas épocas, tiros de pólvora de pequenas peças de artilharia, a partir de dois baluartes decorativos cujos restos ainda se notam.



sábado, 22 de julho de 2017

A Fortaleza de São João Batista



Forte de São Filipe do Monte Brasil
(Autor desconhecido, 1595)


2017-07-22 - Bilhete Postal Máximo (BPM) comemorativo do
Dia do Comando das Forças Terrestes, da Zona
Militar dos Açores e do Regimento de Guarnição n.º 1 em
Angra do Heroísmo

Carimbo comemorativo para obliteração
do sobrescrito de 1º Dia

2017-07-22 - Sobrescrito (FDC) e carimbo comemorativos do
Dia do Comando das Forças Terrestes, da Zona
Militar dos Açores e do Regimento de Guarnição n.º 1 em
Angra do Heroísmo

 
2017 - Série Europa - Açores
Fortaleza de São João Batista
em Angra do Heroísmo
Emissão dos CTT
Carimbo comemorativo para obliteração
do sobrescrito de 1º Dia
Edição nº 43 do NFAH

 
 
 
Fortaleza de São João Baptista
 Portão de Armas
 



A “Fortaleza de São João Baptista”, oficialmente denominada como “Prédio Militar n.º 001/Angra do Heroísmo”, mas também referida como “Castelo de São João Baptista”, “Fortaleza de São Filipe”, “Castelo de São Filipe”, e “Fortaleza do Monte Brasil”, localiza-se na freguesia da Sé, na cidade e concelho de Angra do Heroísmo, na costa sul da ilha Terceira, na Região Autónoma dos Açores, em Portugal.
 
 


Em posição dominante sobre o istmo da península do Monte Brasil, no lado ocidental da baía de Angra, e oriental da baía do Fanal, integra um complexo defensivo iniciado durante a Dinastia Filipina (1580-1640). Devido ao seu porte, constitui-se na mais importante fortificação do arquipélago, estruturada como um dos vértices do triângulo defensivo estratégico espanhol que, à época, protegia as frotas da prata americana, da Carreira da Índia e do Brasil. Os outros vértices apoiavam-se nos complexos fortificados de Havana, na ilha de Cuba, e de Cartagena das Índias, na Colômbia.




É ainda, juntamente com a Fortaleza da Aguada, em Goa, na Índia, uma das mais vastas fortificações remanescentes na atualidade. Em nossos dias constitui-se no quartel do Regimento de Guarnição n.º 1 (RG1) - Regimento de Angra do Heroísmo.

História
 



Antecedentes


O estudo para a defesa das ilhas do arquipélago dos Açores, contra os assaltos de piratas e corsários, atraídos pelas riquezas das embarcações que aí aportavam, oriundas da África, da Índia e do Brasil, iniciou-se em meados do século XVI. Bartolomeu Ferraz, numa recomendação para a fortificação dos Açores apresentada a João III de Portugal (1521-1557) em 1543, chamou a atenção para a importância estratégica do arquipélago:
 


"E porque as ilhas Terceiras inportão muito assy polo que per ssy valem, como por serem o valhacouto e soccorro mui principal das naaos da India e os francesses sserem tão dessarrazoados que justo rei injusto tomão tudo o que podem, principalmente aquilo com que lhes parece que emfraquecem seus imigos, (...)." ("Carta de Bartholomeu Ferraz, aconselhando Elrei sobre a necessidade urgente de se fortificarem as ilhas dos Açores, por causa dos corsários francezes." (1543). Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Cartas Missivas, maço 3.º, n.º 205. in Arquivo dos Açores, vol. V, 1981, pp. 364-367, citação à pp. 365-366.)

E nomeadamente sobre Angra: "(...) e porque a ilha da Angra he a mais importante nesta dobrar mais a força." (Op. cit., p. 367.)

Ainda sob o reinado de D. João III e, posteriormente, sob o de Sebastião I de Portugal (1568-1578), foram expedidos novos Regimentos, reformulando o sistema defensivo da região, tendo-se destacado a visita do arquiteto militar italiano Tommaso Benedetto ao arquipélago, em 1567, para orientar a sua fortificação. Como Ferraz anteriormente, este profissional compreendeu que, vindo o inimigo forçosamente pelo mar, a defesa deveria concentrar-se nos portos e ancoradouros, guarnecidos pelas populações locais sob a responsabilidade dos respetivos concelhos.
 
 


A Dinastia Filipina

No contexto da Dinastia Filipina (1580-1640) o cartógrafo Luís Teixeira regista no Monte Brasil um "Forte" no porto do Fanal, e "Vigias" na ponta do Brasil. ("Descripçam da Ylha do Bom Ihesu chamado Terceira", 1587, mapa, cor, 64 x 89 cm, Portolano 18, Biblioteca Nazionale Centrale di Firenze)


A fortaleza do Monte Brasil foi principiada após a conquista da Terceira pelas tropas espanholas sob o comando de D. Álvaro de Bazán, 1.º marquês de Santa Cruz de Mudela (1583), e no contexto da Guerra Anglo-Espanhola (1585-1604), onde tiveram papel destacado a ação de corsários como Francis Drake (1587) e Robert Devereux, 2.º conde de Essex, cujo imediato, Walter Raleigh, atacou a Horta no Verão de 1597.

A sua função era múltipla:

- a de proteção do porto de Angra e das frotas coloniais que nele se abrigavam à época, contra os assaltos de piratas da Barbária e de corsários protestantes naquele trecho do Atlântico Norte, de vez que era nos Açores que as embarcações de torna-viagem deveriam reunir-se, para juntas cumprirem a última etapa de navegação até à península Ibérica, sob escolta da Armada das Ilhas; e

- a de aquartelar as tropas espanholas deixadas pelo marquês de Santa Cruz para a defesa da ilha.

As suas obras foram iniciadas em 1593, data do lançamento de sua primeira pedra, no baluarte de Santa Catarina (ângulo noroeste), em cerimónia presenciada pelo governador do presídio
(estabelecimento militar), D. António de la Puebla e pelo bispo de Angra, D. Manuel Gouveia (ARAÚJO, 1979:79), com projetos dos engenheiros militares italianos Giovanni Vicenzo Casale (O.S.M.) e seus discípulos, Tiburzio Spannocchi e Anton Coll (Antão Colla). Se, no essencial, o esquema defensivo da fortificação se deve a Spannocchi que o concebeu em ou após passagem pela ilha em 1583-1584, como integrante da Armada do marquês de Santa Cruz, as soluções práticas de sua implantação no terreno terão, certamente, a marca de Coll, que desde o início acompanhou os trabalhos em Angra até à sua morte, em 1618 (BRAZ, 1985:311).

Foi denominada como Fortaleza de São Filipe em homenagem ao soberano, Filipe II de Espanha (1556-1598). Por dificuldades diversas os trabalhos estenderam-se até ao governo de D. Diogo Fajardo (1628-1639). Datam deste período a abertura da cisterna, composta por três corpos interligados, e com capacidade para 3.000 pipas, assim como a cavalariça, sobre a qual se ergue o atual Palácio do Governador, e a ermida de Santa Catarina de Sena, posteriormente colocada sob a invocação do Espírito Santo.

A mão-de-obra empregada nos trabalhos, constituída por expressivo número de canteiros e pedreiros locais, foi, em grande parte, fornecida por condenados às galés - encaminhados às obras da fortaleza -, e por soldados do presídio, mais particularmente aqueles punidos a nelas serem inscritos, numa prática iniciada pelo governador Diogo de Miranda Queiroz, mas que conheceu o seu auge no governo de Diogo Fajardo. É discutível a afirmação de autores como ARAÚJO (1979) de que a fortaleza foi erguida com a mão-de-obra de centenas de açorianos condenados a trabalhos forçados, com base na afirmativa do padre Maldonado que referiu "(...) foi feita com pragas, suor e sangue." (op. cit., p. 81). Tanto os Terceirenses quanto os habitantes das demais ilhas, entretanto, suportaram tributos, cujas receitas foram aplicadas nas obras desta fortificação.

A Restauração da Independência

Quando da Restauração da Independência em Portugal (1640), as forças espanholas, sob o comando do Mestre-de-Campo D. Álvaro de Viveiros, aqui resistiram durante onze meses – de 27 de março de 1641 a 4 de março de 1642 –, ao cerco que lhes foi imposto por forças portuguesas, compostas pelas Ordenanças da Terceira às quais se juntaram as das demais ilhas, sob o comando de Francisco Ornelas da Câmara e João de Bettencourt.

Tendo-se rendido com honras militares, foi-lhes permitido retirarem-se com as armas pessoais assim como duas peças de artilharia de bronze e respectiva munição. Os espanhóis deixaram para trás cento e trinta e oito peças de ferro e bronze de diversos calibres, trezentos e noventa e dois arcabuzes, cerca de quatrocentos mosquetes e copiosa munição (ARAÚJO, 1979:80).



Na posse portuguesa, o conjunto foi colocado sob a invocação de São João Baptista: "Só por provisão de 1 de abril de 1643 e a pedido da Câmara de Angra, quando a rendição fora a 7 de março de 1642, é que D. João IV mudou o nome do Castelo de S. Filipe para o de S. João Baptista e mandou que nele se fizesse - '(...) ermida desta invocação que devia estar pronta ao fim de um ano (...)'. Era bem modesto o desejo do novo soberano, perfeitamente justificado nas preocupações e nos dispêndios que a luta com Castela o obrigava a manter." (MENESES, 1958:145)

Há notícia de que, em 1658, se fazia "um baluarte na parte mais necessitada desta fortaleza (...) com que fica fechada por todas as partes de que muito necessitava" (SOUSA, 1996), embora não se consiga precisar a natureza dessas obras: se de construção, reconstrução ou manutenção. Do mesmo modo, em 1662 "corriam as obras do Castelo, cuja despesa de jornais e macames concernentes a elas valiam quase tanto como os mesmos soldos dos soldados e oficiais" (MALDONADO, 1990, 2:380).


Na segunda metade do século XVII, os paióis da fortaleza abasteciam de pólvora as demais fortificações da Ilha. Na cidadela da fortaleza habitavam não apenas os militares solteiros, mas também os casados (com as respectivas famílias) e os reformados (solteiros ou não). Nas encostas do Monte Brasil, mantinham as suas culturas de subsistência. Em finais do século, a irmandade do Espírito Santo do Castelo constituía-se em uma das mais ricas da cidade.






O século XVIII

No contexto da Guerra da Sucessão de Espanha (1701-1713/1715) encontra-se referida como "A fortaleza de S. Joam Baptista sobre o porto, e cidade: hé Bispado. Tem a grande peça Malaca de 36 libras, veyo da Índia." na relação "Fortificações nos Açores existentes em 1710".

O padre António Cordeiro, no início do século XVIII, descreveu a povoação de Angra e a cidadela no interior da Fortaleza de São João Baptista:

"Para o Poente correm tantas ruas, ou quartéis de casas de pedra e cal, de dois sobrados, que podem alojar quinhentos soldados e ordinariamente tem trezentos vizinhos (...) Conta a cidade de Angra de seis freguesias, (contando também por freguesia a nobre povoação que está no grande Castelo, e lá tem capelão-mor (...)". (CORDEIRO, 1717.)


Com a instalação da Capitania Geral dos Açores, os seus quartéis foram objeto de inspeção e relatório por parte do Sargento-mor Engenheiro João António Júdice, ainda em 1766. De maneira geral este encontrou-lhe os quartéis de tropa em condições do "(...) mais deplorável estado (...) reduzidos aos últimos limites da ruína (...).", necessitando de quartéis para oficiais, casa de prisão, armeiros para as companhias, guaritas e cumuas, e diversos reparos. (JÚDICE, 1981:411-413.)

O mesmo oficial, no ano seguinte (1767), apresentou relatório sobre a fortificação em si, especificando o estado em que se achava, assim como o que necessitava para a sua regular defesa, em termos de reparações, obras complementares, artilharia, munições e petrechos, com a observação de que a artilharia existente à época, era a mesma recebida dos Castelhanos quando da capitulação destes, em 4 de março de 1642. (JÚDICE, 1981:414-418.)

Posteriormente, ainda no mesmo século, nas suas dependências foram estabelecidas algumas oficinas de aprendizagem, que perduraram até ao século XIX.

O século XIX e a Guerra Civil
 


Baía de Angra (1830)

Encontra-se identificada na "Planta do Castelo de S. João Baptista e da Cidade de Angra (...)", de autoria do sargento-mor do Real Corpo de Engenheiros, José Rodrigo de Almeida (1805). ("Planta do Castello de S. Ioão Baptista e da cidade de Angra capital das Ilhas dos Açores : feita por ordem do Ill.mo e Ex.mo Sñr. Conde de S. Lourenço Capp.am General e Gov.dor destas ilhas / pello Sarg.to Mor do Real Corpo de Engenheiros, Iozé Rodrigo d'Almeida em 1805". in Arquipélagos.pt.)

No contexto da Revolução do Porto (1820), foi nesta fortaleza que eclodiu o primeiro movimento revolucionário de cunho liberalista nos Açores, liderado pelo antigo Capitão-general, brigadeiro Francisco António de Araújo e Azevedo, a 2 de abril de 1821, debelado no contra-golpe que se sucedeu, na noite de 3 para 4 de abril.

SOUSA (1995), em 1822, ao descrever Angra refere:



"(...) A Praça desta cidade, que se denomina Castelo de São João Baptista, nome que toma da sua Igreja, onde há 1.º e 2.º capelão, é fortificado por 366 peças, guarnecido pelo 1.º Batalhão de Linha dos Açores, e por um regimento de Milícia Nacional que toma o nome da Cidade. Esta praça uma das mais célebres da Europa, foi mandada construir por Filipe II em 1591, para ali dar um seguro asilo à rica navegação que de Ásia, América e África, passava então para a Península. Ela ocupa o grande Monte Brasil de uma légua de circunferência e na altura de uma milha, pegado ao meio da Cidade quase por um istmo e virado a sueste." (Op. cit., p. 93.)

Posteriormente, no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), foi aqui que o Batalhão de Caçadores n.º 5, restaurou os direitos de Pedro IV de Portugal e a Carta Constitucional, a 22 de junho de 1828, hasteando, pela primeira vez, o pavilhão azul e branco da monarquia constitucional; como reconhecimento esta unidade recebeu, da rainha Maria II de Portugal, um pavilhão bordado por ela a fios de ouro.



Também aqui foi instalada, por Ordem da Junta Governativa datada de 7 de maio de 1829, uma Casa da Moeda, onde se fundiram, em areia, com o bronze dos sinos da Terceira, os "malucos", moedas de 80 réis, conforme o modelo da peça em ouro cunhada no Rio de Janeiro, no governo do Príncipe-regente D. João. Pouco tempo depois, por determinação da mesma Junta, esta moeda passou a correr com o valor de 100 réis.

Ainda em 1829, o seu fogo combinado com o da Forte de São Sebastião afastaram a esquadra miguelista da baía de Angra.

A "Relação" do marechal de campo Barão de Basto em 1862 informa que se encontra em bom estado de conservação, e observa:

"Deve ser conservado, por que pode considerar-se como uma cidadela importante da Cidade, e de toda a Ilha; é o ponto militar de maior importancia do Archipelago, e um padrão das primeiras victorias da liberdade contra a uzurpação." (BASTO, 1997:272.)

No fim do século esteve detido, nas dependências da fortaleza, o régulo Gungunhana, de 1896 até à sua morte, em 23 de dezembro de 1906.





Do século XX aos nossos dias



 No alvorecer do século XX, em 1901 registou-se a Visita Régia à Madeira e aos Açores, evento único na história dos arquipélagos. Na ilha Terceira, quando o iate "Amélia III" ultrapassou a barra de Angra do Heroísmo (1 de julho), a artilharia da fortaleza salvou 21 tiros, em homenagem à chegada dos visitantes reais. (MARTINS, 2001) Estes foram recebidos a 2 de julho no Castelo de S. João Baptista, aguardados na Praça de Armas pelo General Governador Joaquim Pereira Pimenta de Castro e toda a guarnição, por quem foram prestadas as honras devidas. ("O Peregrino de Lourdes", n.º 670, 11 jul 1901.)
 
 

 


No contexto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) as dependências da fortaleza foram utilizadas, Depósito de Concentrados", súbditos alemães obrigados a permanecer em Portugal por força das determinações que se seguiram à declaração de guerra.
entre 1916 e 1919, como "


 
 
 


Posteriormente outras dependências foram utilizadas como prisão política pelo Estado Novo português, tendo aqui sido criado, em 1933, um presídio militar, e, em 1943, o "Depósito de Presos de Angra".

Em meados do século, o plano da Comissão da Avaliação das Novas Infraestruturas das Forças Armadas (CANIFA) conduziu à demolição dos edifícios do terrapleno oeste da fortaleza, bem como de alguns a leste da Igreja da Fortaleza.

O conjunto da igreja e das muralhas encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 32.973, de 18 de agosto de 1943, tendo instituída Servidão Cultural. Encontra-se também incluído na área classificada como Património Cultural da Humanidade (Património Mundial) por declaração da UNESCO de 1983 Encontra-se classificada como Monumento Regional e tem Servidão Ambiental por se encontrar inserida na Paisagem Protegida do Monte Brasil.

Os visitantes podem usufruir, além das trilhas demarcadas nas encostas do Monte Brasil, visitas acompanhadas pelos militares do forte em sua parte histórica.

Características




Exemplar de arquitetura militar, abaluartado, com aquartelamento do tipo CANIFA misto, que dispões de áreas de instrução e apoio de serviços.



A atual estrutura cobre uma superfície de cerca de três quilómetros quadrados e é constituída por um núcleo principal, fechado no istmo, pelo lado de terra (norte), por uma cortina abaluartada na cota de 111,5 metros acima do nível do mar. Essa muralha, com três baluartes e dois meio-baluartes, desenvolve-se num comprimento de cerca de 570 metros, erguendo-se a uma altura média de 15 metros, e apresentando 2,6 metros de largura em sua parte superior. Diante dela, em considerável extensão, foi escavado um fosso com largura média de dez metros e, em alguns trechos, de igual profundidade em relação à defesa exterior. A partir de cada uma de suas extremidades projetam-se duas outras cortinas que envolvem a península.

Os cinco baluartes que reforçam a muralha no istmo, de Oeste para Leste, são respetivamente:

- Baluarte de Santa Catarina, sobre a rocha do Fanal, com sete canhoneiras. Em seu ângulo saliente ergue-se o chamado Torreão dos Mosquitos coroando uma vigia abobadada, outrora utilizada como paiol de bateria. É ligada por uma cortina de dois lances, em diferentes níveis, onde se abrem quatro canhoneiras, ao

- Baluarte de de São Pedro, à esquerda do Portão de Armas, com quinze canhoneiras. Em seu ângulo esquerdo também tem um paiol de bateria. Seguia-se-lhe uma extensa cortina de dois lances onde, em 1766, se abriam seis canhoneiras no troço da esquerda, e sete no da direita. Essas canhoneiras não chegaram até aos nossos dias. À cortina, à direita do Portão de Armas, (o Portão de Armas, em talha de pedra vulcânica, de inspiração maneirista, foi originalmente coroado pelas armas reais espanholas, posteriormente substituídas pelas armas reais portuguesas.) liga-se o



- Baluarte da Boa Nova, com dezasseis canhoneiras. Em seu ângulo saliente existem dois paióis, encimados pelo chamado Torreão da Bandeira, onde se levanta o mastro da bandeira da fortaleza. A face deste baluarte, debruçada sobre a baía de Angra, no contexto das Guerras Liberais, passou a denominar-se Bateria de D. Pedro IV, conforme inscrição epigráfica em lápide de mármore. A cortina que se lhe segue estava artilhada com seis peças. No contexto das Guerras Liberais esta cortina passou a denominar-se Bateria de D. Maria II, conforme outra inscrição epigráfica ali colocada. No limite sul desta cortina existe uma casamata, denominada de Bateria de Malaca, por ali ter existido, outrora, uma peça de bronze do calibre 36 oriunda da Fortaleza de Diu, recolhida a Lisboa em 22 de julho de 1771. Dessa bateria, por sobre o arco do Portão de Armas, descendo-se uma escada para um antigo jardim onde há uma canhoneira, alcança-se o

- Baluarte do Espírito Santo, sobre o chamado Campo do Relvão, onde se abrem quatro canhoneiras e três paióis - um a meio e dois nos ângulos -, ligando-se, por sua vez, a uma cortina com seis canhoneiras e um paiol, cortina essa que termina no

- Baluarte de Santa Luzia, com cinco canhoneiras e um paiol, que se continua por dois troços de cortina em planos descendentes, cada uma a sua canhoneira e, no último, um paiol. Neste baluarte foi construído, em 1849, um paiol conhecido como Paiol Novo. Também se ergue, neste baluarte, o edifício do antigo Laboratório de Artilharia, que substituiu o antigo, mais amplo, destruído por violento incêndio em 7 de maio de 1821, com cinco vítimas fatais.

No flanco esquerdo da fortaleza, junto ao Baluarte de Santa Catarina, sobre a baía do Fanal, existe ainda a chamada Bateria do Arsenal, com cinco canhoneiras.

O Baluarte de Santa Luzia liga-se à cortina de Santo António, ao longo da costa leste do Monte Brasil, com aproximadamente um quilómetro de extensão, onde se inscrevem, no sentido norte-sul:

- a Porta do Portinho Novo e

- a Porta do Cais da Figueirinha

- o Reduto dos Dois Paus;

- o Reduto de São Francisco;

- o Forte de São Benedito do Monte Brasil (Reduto dos Três Paus);

- o Reduto de Santo Inácio; e

- o Forte de Santo António do Monte Brasil.



No lado sudeste da península, voltado a mar aberto, a defesa é proporcionada pelo Forte da Quebrada. Em posição dominante no lado sudoeste encontra-se a Vigia da Baleia. Do lado oeste, sobre a baía do Fanal, a cortina de São Diogo, que também se estende por cerca de um quilómetro, compreende, no sentido sul-norte:

- a Bateria da Constituição;

- o Forte do Zimbreiro;

- a Bateria da Fidelidade;

- o Reduto General Saldanha;

- o Reduto de São Gonçalo;

- o Reduto de Santa Cruz;

- o Reduto de Santa Teresa; e

- o Cais do Castelo, na baía do Fanal.

No recinto da fortaleza, abrem-se quatro cisternas:

- no interior do castelo, com capacidade para 1.500 metros cúbicos;

- no interior do Forte de Santo António;

- no interior do Forte da Quebrada; e

- na cortina do Forte do Zimbreiro, onde foi escavada uma gruta, de cuja abóbada escorre água durante todo o ano.

Curiosidades



- Acredita-se que esta seja a maior fortaleza construída pela Espanha em todo o mundo;

- Estava guarnecida, à época, por mil e quinhentos homens de primeira linha e artilhada com cerca de quatrocentas peças dos diversos calibres;

- A contaminação das águas das suas amplas cisternas estará na origem do surto epidêmico que dizimou a guarnição espanhola, precipitando a sua rendição em 1642;







- Sobre o Portão de Armas inscrevem-se o escudo com as armas portuguesas (em substituição às armas filipinas) e uma lápide evocativa da consagração de Portugal à Imaculada Conceição, ambas as pedras colocadas após a rendição espanhola;~



- O acesso primitivamente era por um passadiço de madeira sobre o fosso, posteriormente substituído por uma ponte em cantaria de dez arcos, interrompida junto à muralha para dar lugar a uma ponte levadiça;

- Escavado no tufo vulcânico, a seguir à entrada, localiza-se o Corpo da Guarda, com as antigas prisões filipinas, abandonadas no século XVIII, e reutilizadas após o golpe militar de 28 de maio de 1926, momento em que a fortaleza foi utilizada como prisão política;

- Na Praça de Armas, ergue-se à direita o Palácio do Governador, levantado sobre um primeiro pavimento escavado no tufo – a cavalariça –, de construção espanhola;



- Em seu interior foi erguida, em 1645, a primeira igreja no país, após a Restauração da Independência Portuguesa;



- No edifício anexo ao Palácio do Governador viveu Afonso VI de Portugal, em seu exílio, entre 1669 e 1674;

- Constitui-se no aquartelamento de tropas operacionais mais antigo em território português, com uma permanência ininterrupta de quatro séculos;

- O Regimento de Angra do Heroísmo (RG1), é a organização militar mais Ocidental de Portugal e da Europa.

 
 
Texto obtido através do site: Fortalezas.org


Monte Brasil - Fortaleza de São João Batista
A foto é da autoria do engenheiro Gil Navalho,
tirada de parapente no dia 15 de julho de 2012.
 
Criação de "Os Montanheiros"
Angra do Heroísmo