terça-feira, 18 de julho de 2017

Padre António Vieira


Séc. XVII - Retrato de Arnold Van Westerhout
Padre António Vieira
Nasceu a 6 de Fevereiro de 1608 em Lisboa
Faleceu a 18 de Julho de 1697 em Salvador (Brasil)


História de um Naufrágio nos Açores


Em 1654, o célebre orador jesuíta, Pe António Vieira, sofre um naufrágio junto da ilha do Corvo, sendo salvo in extremis por corsários holandeses. É graças a este naufrágio que a devoção do terço se inicia nas ilhas dos Açores.

Logo após a sua subida ao trono, aquando da restauração de 1640, D. João IV encontra um Império Português em franca decadência. Com efeito, um mês e meio depois da conjura de 1 de Dezembro, Malaca cai em poder dos Holandeses. Mesmo após a celebração do Tratado de Aliança de 12 de Junho de 1641, os Estados Gerais das Províncias Unidas teimam em consolidar as suas posições em território português, conquistando Luanda a 24 de Agosto do mesmo ano e o forte de Achém, em Março de 1642.


Na mesma altura, o Pe António Vieira era enviado em missões diplomáticas a Haia e a Paris de modo a tentar obter o apoio de Mazarino para o resgate das terras brasileiras ocupadas pelos Holandeses. É também nesta altura que este clérigo propõe várias medidas revolucionárias que visavam combater o miserável estado do Reino, tais como o retorno dos judeus mercadores que se encontravam exilados pela Europa e a não confiscação, pela Inquisição, dos bens dos sentenciados.

FDC comemorativo do 300º aniversário da sua morte
Ao mesmo tempo que tentavam conquistar o Brasil pela força das armas, os Holandeses implementaram um formidável esquema de corso naval tendo aprisionado, só no ano de 1648, 249 navios dos 300 que normalmente percorriam anualmente o Atlântico. Como resposta a esta acção é criada, a 10 de Março de 1650, a Companhia Geral de Comércio para o Brasil que tinha como incumbência a protecção armada dos navios mercantes detentores do monopólio do trato do bacalhau, da farinha, do azeite, do vinho e do pau-brasil.

Será só em Janeiro de 1654 que se obtém a capitulação dos Holandeses residentes no Brasil, o que marcará a reconstituição do Brasil português tal como ele existia antes da junção das duas coroas ibéricas.

É também no ano de 1654, logo após a célebre Pregação aos Peixes - por falta de ouvidos da parte dos habitantes do Maranhão - que o Pe António Vieira parte para Lisboa, juntamente com dois companheiros, a bordo de um navio da Companhia Geral carregado de açúcar. Partia para, mais uma vez, defender junto do monarca os direitos dos índios escravizados contra a cobiça dos colonos.

Como era habitual nos navios ibéricos, a vida quotidiana a bordo era regida pelas práticas religiosas, conduzidas neste caso pelo Pe António Vieira, grande partidário da reza pública do terço do Rosário. Esta monotonia foi intempestivamente quebrada por uma tormenta desfeita que se abateu sobre o navio cerca de 2 meses após a sua partida do Brasil, já à vista da ilha do Corvo.

Subitamente, as vagas tornaram-se excepcionalmente altas; o mar ficou completamente coberto de espuma e a visibilidade ficou reduzida ao mínimo. Como única salvação, o piloto mandou arriar todas as velas, à excepção da do traquete e deixou o navio correr com o tempo, à capa. De repente, uma rajada mais forte arrancou a vela e fez adornar a embarcação, ficando o seu bordo direito sob as ondas. Imediatamente, os passageiros em pânico correram para o costado oposto em tropel confuso.


O Pe António Vieira, depois de a todos dar a absolvição geral, levantou a voz aos elementos e, bradou aos “Anjos da guarda das almas do Maranhão, lembrai-vos que vai este navio buscar o remédio e salvação delas. Fazei agora o que podeis e deveis, não a nós, que o não merecemos, mas àquelas tão desamparadas almas, que tendes a vosso cargo; olhai que aqui se perdem connosco.”

Após tal exclamação, fez com que todos fizessem voto à Rainha dos Anjos de lhe rezarem um terço todos os dias se, porventura, conseguissem escapar das garras da morte. Um quarto de hora esteve o navio adornado sob as ondas, até que os mastros se partiram. Com a sua quebra e com o peso da carga de açúcar que se encontrava estivada até ás escotilhas, o navio girou sobre si próprio e retomou a sua posição natural. Todos se apressaram a recolher ao convés e, de joelhos, prestaram graças à Soberana Mãe de Deus.


No entanto, sem mastros, sem velas, sem enxárcia e ao sabor dos elementos em fúria, a sua perdição tinha sido apenas adiada. Eis senão quando, ao longe, aparece outra nau que também corria com o tempo. Um nova esperança se levantava nos náufragos, esperança esta que depressa morreu com o afastamento do navio desconhecido. Este, cego ao navio destroçado e raso com o mar, acabou por mais tarde milagrosamente seguir uma derrota que o fez atravessar directamente a embarcação portuguesa a meio da noite.

Esta embarcação era um dos tais famosos corsários holandeses que cruzavam o Atlântico embusca de presas. Recolheram os náufragos a bordo, pilharam o que puderam do navio à deriva - que acabaria por ir a pique - e fizeram desembarcar os portugueses na ilha Graciosa após os terem despojado de todos os seus pertences pessoais.

Ermida da Boa Nova 
Para acudir à miséria dos seus quarenta e um companheiros de infortúnio, o Pe António Vieira valeu-se da sua Companhia de Jesus e do seu nome. Tudo fez para lhes providenciar roupa, calçado e dinheiro durante os dois meses em que permaneceu na ilha Graciosa. Foi também a partir da Graciosa que o Pe António Vieira creditou Jerónimo Nunes da Costa para que este fosse a Amsterdão resgatar os papéis e livros que lhe haviam sido tomados pelo corsário, tarefa esta que, ao que tudo indica, se cumpriu visto dispormos hoje de cerca de 200 sermões - um dos quais, o vigésimo sexto, relata este naufrágio - e 500 cartas deste autor, muitas delas anteriores ao naufrágio.


Quando conseguiu passar à ilha Terceira, a sua acção determinou também o aprestamento de uma embarcação para que todos os seus outros colegas de infortúnio pudessem tomar o porto de Lisboa.

O Pe António Vieira permaneceu na Terceira durante mais algum tempo, iniciando também aqui a devoção do terço, que pela primeira vez foi cantado na igreja da Boa Nova.

Da Terceira passou a São Miguel e daqui embarcou a bordo de um navio inglês para Lisboa, a 24 de Outubro de 1654. Quis a Providência que, mais uma vez, a sua viagem fosse marcada por um temporal que afligiu sobremaneira os passageiros portugueses - que se entregaram como de costume às habituais ladainhas em que como Católicos, como quem cria na outra vida, repetidamente se confessavam para morrer - mas que em nada preocupou os marinheiros ingleses que, talvez por serem hereges ou talvez por serem mais confiantes na sua embarcação do que os seus passageiros, se limitaram a comer como se nada fosse, embalados que estavam pelo canto dos canários-da-terra que levavam a bordo.

1685 - A Inquisição em Portugal


E foi assim que, em Novembro de 1654, aportou ao Tejo o homem que acabaria por falecer na Baía, cego e surdo, a 18 de Julho de 1697. Durante a sua vida passara mais de 10 anos a lutar pela independência de Portugal, outros tantos a lutar pelos direitos dos índios da Amazónia e outros sem fim a combater os inquisidores de Coimbra. Estes, que o fizeram encarcerar de Fevereiro de 1663 a Outubro de 1665 e que o forçaram a ouvir durante duas horas, de joelhos, a enumeração das suas culpas e que o proibiram de sair do reino e de usar de voz activa e passiva, viram a sua Inquisição suspensa durante 27 meses graças à acção do Pe António Vieira. Este feito único só não se prolongou por mais tempo e conduziu à extinção da Inquisição em Portugal porque os bispos portugueses ameaçaram a Santa Sé com um cisma da igreja nacional.




Foi também assim que este grande orador - a quem Fernando Pessoa apelidou de Imperador da Língua Portuguesa - e verdadeiro Homem de Deus escapou (por milagre divino?) da morte ao largo dos Açores.

 Autor do texto: Paulo Monteiro