terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carnaval Açoriano


O CARNAVAL
(Breve história da sua origem)

Deusa Ísis
O motivo do Carnaval é enigmático e sobre ele subsistem matizadas versões. Terá aparecido na Europa e se vulgarizado pelo planeta conduzido por gregos e romanos e, posteriormente, pelos colonos portugueses, espanhóis, franceses e holandeses para territórios e continentes onde dissemelhantes plebes o moldaram às suas inerentes culturas sociais e vivências. Não se pode certificar, igualmente, com segurança qual é a origem do vocábulo, mas existem duas versões quanto à sua acepção.



Deus Baco
A primeira afiança que a palavra Carnaval vem de carrus navalis, os carros navais com gigantescas pipas de vinho que durante as Bacanais, festins em honra a Baco (Deus dos ciclos vivificantes, do júbilo e do vinho, popular entre os gregos como Dionísio), eram concedidos aos habitantes Romanos.

À segunda versão é adjudicada procedência religiosa, com interpretação antagónica à diversão, ao divertimento e à malícia a que associamos o Carnaval contemporâneo. Segundo este traslado, o termo "Carnaval" teve origem no latim carnevale, designando "suspensão da carne".
Papa Gregório I
O Papa Gregório I, detentor do cognome o Grande, transferiu em 590 d.C. o princípio da Quaresma para a quarta-feira anterior ao sexto domingo que antecede a Páscoa. Ao sétimo domingo, denominado de "quinquagésima", deu o título de dominica ad carne levandas, enunciação que foi gradualmente resumida para carne levandas; carne levale; carne levamen; carneval; carnaval, todas mutáveis de dialectos italianos que designam a acção de livrar, embargar, logo de "retirar a carne" da alimentação do ser humano.

Os cristãos inauguravam o festejo do Carnaval na quadra de ano novo e festa de Reis, redobrando-a no período que se antepunha ao derradeiro dia em que os cristãos comiam carne antes da Quaresma, que prepara os fiéis para a Páscoa.

Quaresma Cristã
Durante a Quaresma havia, também, privação de sexo e entretenimentos como o circo, o teatro ou as festas, alongando o sentido da suspensão da carne aos prazeres considerados carnais. Logo, todos tratavam de usufruir supremamente até ao último dia, que ficou sabido como "terça-feira gorda".

O Carnaval finda com a penitência na Quarta-feira de Cinzas, que dá início à expurgação do corpo e da alma pelo dilatado jejum de quarenta dias, reedificando desse modo a ordem fendida pela libertinagem do festejo.

Deus Ápis

As celebrações carnavalescas são mais clássicas do que a religião cristã e avolumam numerosos símbolos e significados ao longo da história dos povos.

Há referências a festas análogas praticadas por matizados povos agrários, como entre os egípcios
(festa em louvor à deusa Ísis e ao boi Ápis), entre hebreus, entre babilónios (festa das Sáceas, que durava cinco dias nos quais reinavam a licença sexual e a inversão dos papéis entre senhores e servos) e entre os antigos germânicos (festa oferecida à deusa
Herta).

Deusa Ísis

Durante essas festas, homens e mulheres comemoravam o desfecho do clima nefasto do
Inverno – que aniquilava o plantio, repelia a caça e os aprisionava aos abrigos – e o começo do tempo benigno, com a volta da quentura do sol, a vinda da primavera, das flores e da opulência do solo, cantarolando e bailando para expor o seu contentamento e espantar as contraproducentes energias do gélido frio e da cavernosa opacidade que molestavam o plantio.






O CARNAVAL NOS AÇORES


O Carnaval nos Açores é um misto de entrudo, bailes, marchas, danças e bailinhos. A origem do Carnaval ou Entrudo Terceirense perde-se nos tempos.

Na Terceira, as marchas, danças e bailinhos, em número de meia centena, levam às sociedades de toda a Ilha, milhares de pessoas para assistirem a um típico teatro popular que ironiza o quotidiano açoriano e as figuras políticas regionais. É uma tradição popular que passa de geração em geração. Cada freguesia da ilha organiza um ou mais grupos a que chamam dança ou bailinho, compondo a sua própria música (letra e arranjos), ensaiam uma coreografia, ensaiam a intrepretação da comédia, criam as suas próprias roupas e deambulam nos dias, especialmente noites de carnaval, pelas diversas comunidades da Terceira.



Existem várias categorias de danças e bailinhos: As danças de espada, as danças de pandeiro, as danças de varinha e os bailinhos que podem ter tanto a vara como a pandeiro, masculinos, femininos ou mistos.

Na Graciosa, em São Jorge, Sta Maria, Pico, Faial, Flores e Corvo, são os bailes e matinés nas sociedades que recebem centenas e centenas de pessoas que, com trajes de carnaval e fantasias, entrudam em alegres convívios, acompanhados com os doces típicos da época: filoses, malassadas e cuscorões, sem esquecer os licores, o "cup", e as bebidas típicas das ilhas. Convém ainda referir o teatro popular dos bandos que no Pico satiriza o quotidiano das populações da ponta da ilha, ou os desfiles carnavalescos de milhares de crianças em todo o arquipélago.


FOTOGRAFIAS









Vídeo do Carnaval na Terceira
(Vários bailhinhos)


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Baleação Açoriana

1848 - Pintura existente no
Museu dos Baleeiros no Pico

A BALEAÇÃO AÇORIANA
(Breve história da sua origem)


A primeira referência documental à captura de baleias nas águas dos Açores remonta ao século XVI, ao largo da ilha de Santa Maria. De acordo com Frutuoso:
"No ano de 1574 acharam os pescadores uma baleia morta onde se chama o Mar de Ambrósio, e, por ser longe e estar um só batel, a não levaram a terra, inteira, senão muitas postas dela, de que fizeram muito azeite.
No ano seguinte de 1575, a derradeira oitava de Páscoa, apareceu outra, junto da Vila, e três ou quatro batéis, que foram a ela, a levaram à costa, junto de Nossa Senhora da Concepção, da qual se fez muito proveito e tiraram ambre (sic), que lá foi buscar desta ilha o feitor de el-Rei, Jorge Dias. Dizem que aproveitou, mas os pobres nada dele gozaram.
No mesmo ano, em meio de Junho, apareceu outra da banda de Sant'Ana, a qual tiraram em terra no porto de Nossa Senhora dos Anjos, de que se fizeram dez ou doze pipas de azeite.
Daí a poucos dias, acharam outra da mesma banda de Sant'Ana, mas porque já andavam os homens enfadados, e ser tempo de aceifa, não curaram dela, até que desapareceu de todo.
Os anos passados, foi achado em Sant'Ana um grande pedaço, que parecia tábua de uma coisa como cevo e da mesma sua cor, que ardia mui bem, e diziam que também aproveitava para frialdade, sem se acabar de determinar o que seria. E muitos há que em São Lourenço saiu um baleato pequeno, afora outros que não lembram."
Embora se registe a presença de baleeiros ingleses no século XVIII, a caça sistemática ("baleação") nas águas do arquipélago só se iniciou na segunda metade do século XVIII e do século XIX, com a chegada dos navios baleeiros estadunidenses, nomeadamente aqueles oriundos de New Bedford e de Nantucket. Ao arregimentavam homens para completar as suas tripulações nas ilhas, foi com eles que os açorianos aprenderam as técnicas e o domínio dos instrumentos, patente no uso do próprio vocabulário baleeiro, quase que totalmente de origem anglo-saxónica.

É com a experiência desses homens que, na década de 1850 se constituíram as primeiras armações baleeiras nos Açores, nas ilhas do Oeste. Para isto foram fundamentais as embarcações baleeiras (adaptações dos primeiros modelos importados de New Bedford pela família Dabney, do Faial), de palamenta apropriada e com tripulação de, pelo menos, 7 homens (mestre, arpoador/trancador, remador e marinheiros). O Topo, na ilha de São Jorge, foi a primeira localidade onde se armaram canoas. Nas Velas, foi arpoada a primeira baleia em janeiro de 1886.

Na década de 1880, constituíram-se armações no Grupo Oriental, a partir da ilha de São Miguel. Nesta ilha existiram quatro companhias baleeiras:
  • No Calhau Miúdo das Capelas, junto ao Morro, fundada a 29/10/1884;
  • No porto de Santa Iria, na freguesia da Ribeirinha, fundada no mesmo ano (1884);
  • Na Grota, junto à Praia Grande dos Mosteiros, a "Companhia Pescadora", fundada em 23/10/1885 da qual era gerente o conhecido industrial João de Melo Abreu;
  • No Castelo do Porto Formoso, a "Companhia Baleeira Esperança", fundada por alvará de 20/04/1886.
Além destas, o Governo Civil de Ponta Delgada passou ainda, com data de 5 de Agosto de 1885, alvará provisório a Amâncio Júlio Cabral e José Maria Pimentel, para criação de uma empresa dedicada à pesca de cetáceos no Areal Grande de S. Roque, na costa sul da ilha.

Todas estas empresas tiveram existência mais ou menos efêmera, à exceção da Companhia Baleeira das Capelas/São Vicente que, ao longo dos anos cresceu em meios e equipamentos, tendo aumentado as suas capacidades operacional e técnica, a ponto de ter se constituído uma das empresas de maior dimensão e com mais longa existência no arquipélago (1884-1983).

As campanhas baleeiras no arquipélago tinham lugar anualmente, de 15 de Maio a 15 de Setembro. Eram utilizados os chamados "botes de boca aberta", típicos dos Açores, e arpões.

Após a captura, as carcaças dos cetáceios eram objecto de desmanche para a extracção do óleo ("azeite"), do âmbar-gris, das barbatanas e da carne. Os ossos eram reduzidos a farinha. Até à década de 1930, a extracção do chamado "azeite de baleia" ainda era processada pelos próprios baleeiros, por um processo artesanal conhecido como "a fogo directo", em instalações denominadas "traióis", constituídas por duas caldeiras adossadas, assentes sobre uma fornalha. Na ilha de São Jorge, em 1936, registavam-se quatro armações: três nas Velas e uma no Topo.

Em meados do século XX, esse trabalho foi gradativamente sendo substituído pela industrialização do processo, em fábricas de derretimento, que utilizavam autoclaves a vapor de grande capacidade.

Desde 1987 que deixou-se de praticar a "caça" à baleia em Portugal, tendo o último cachalote sido caçado naquele ano, ao largo da vila das Lajes do Pico. O comércio dos produtos extraídos da baleia foi proibido.









A partir de 1992 tem sido pedida a concessão de quotas para a exploração comercial de algumas espécies, o que tem sido recusado pela IWC. Para além da caça tradicional, apenas a Noruega retomou a caça, já que tinha apresentado uma objecção à moratória, o que lhe permite legalmente prosseguir a baleação. O Japão, sob a guisa de investigação científica, tem vindo a caçar um número crescente de baleias.

Apesar do óleo de baleia não ter hoje valor comercial que justifique a caça, a carne da baleia é considerada um acepipe no Japão e na Noruega, pelo que a caça agora é cada vez mais dirigida para o consumo humano da carne.

No caso do Japão, dada a escassez da oferta, o preço da carne de baleia atinge valores extremamente elevados, havendo uma procura crescente por parte dos consumidores. Daí que a pressão para retoma da baleação comercial seja grande.

A espécie mais caçada hoje é a rorqual-anã-austral, a mais pequena de entre os balenopterídeos. Estima-se que a sua população actual atinja os 180 000 animais no Atlântico central e nordeste e 700 000 animais em  torno da Antártida.

Em 2003, a Comissão Baleeira Internacional iniciou um estudo plurianual das águas do Oceano Antártico com o objectivo de estabelecer novas e mais seguras estimativas do efectivo populacional. A Noruega tem também vindo a fazer estudos plurianuais das populações de cetáceas daquela área desde 1995, conforme é sua obrigação nos termos da Convenção enquanto Estado que mantém baleação comercial.

Apesar de se esperar que o estudo revele um aumento generalizado das populações de cetáceos, alguns dos Estados membros mais influentes da Comissão Baleeira Internacional, como o Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia deverão bloquear o reinício da baleação comercial. Este bloqueio prende-se essencialmente com questões de bem estar animal relacionadas com os métodos de captura e não com quaisquer políticas de conservação das populações de cetéceos. Esta política tem vindo a polarizar as actividades da IWC e tem-se vindo a registar uma "corrida ás armas" com ambos os lados, pro a a favor da caça á baleia, a aliciar países muitos deles sem qualquer tradição baleeira e mewsmo sem costa litoral, a juntar-se a comissão com o objectivo de subverter as votações.


Scrimshaw é uma palavra da língua inglesa, de etimologia discutida, mas que designa a arte de entalhe e gravação ou pintura em marfim - dentes e ossos da mandíbula - de cachalotes.

As peças são muito variadas, utilitárias e decorativas, como por exemplo caixas, talas para corpetes de vestidos de senhora, dedais, cabos de sinete, punhos de bengala, dados e até carretilhas para recorte da massa tenra.    

Essa manifestação artística está ligada tradicional à atividade da baleação e, em Portugal, apenas despertou a atenção dos estudiosos a partir dos finais da década de 1950. Constitui a mais autêntica e conhecida manifestação da chamada "arte baleeira" que teve as suas origens no século XIX, nas frotas de baleação, inicialmente formadas por marinheiros norte-americanos, mas em pouco tempo integradas também por numerosos açorianos e até

cabo-verdianos. É uma arte feita por marinheiros e a eles destinada, embora, com o decorrer dos tempos, os destinatários deste tipo de peças artísticas se tenham diversificado, atingindo já não apenas familiares, namoradas e amigos dos marinheiros, mas um vasto número de pessoas apreciadoras das actividades marítimas e do artesanato ligado ao mar.


A arte de "scrimshaw" correspondia à ocupação nas horas de ócio a bordo e a uma expressão de saudade da família e da terra do artista.

As invocações religiosas são menos frequentes ou mais recentes. As técnicas mais utilizadas são a incisão ou a gravação, sendo os entalhes pigmentados. Já no século XX, surgiram os motivos incrustados, por vezes em alto-relevo.




O PATRIMÓNIO BALEEIRO
 NOS AÇORES



Nas sociedades contemporâneas, fortemente marcadas pelos fenómenos crescentes da globalização e da massificação cultural, apercebemo-nos de que os valores culturais permanecem ao longo do tempo, como algo que garante a unidade do tecido social e realça e promove a especificidade cultural de cada comunidade. Neste quadro, de homogeneidade global crescente e de erosão das culturas tradicionais e singulares, as pequenas comunidades sentem cada vez mais a necessidade vital de reabilitarem a sua identidade cultural.

Pela importância socioeconómica que teve na vida das populações e pelo carácter épico-dramático de que se revestiu, a baleação deixou marcas – traços “identitários” - profundas na memória coletiva de muitas localidades açorianas.

Apesar da dimensão regional da atividade baleeira foi, no entanto, na ilha do Pico que o complexo cultural da baleação se exprimiu com maior intensidade. O Pico, como reconhecido e inquestionável referente paradigmático do imaginário baleeiro regional, tem cultivado os valores e as memórias da baleação, consagrados no Museu dos Baleeiros e do Museu da Indústria Baleeira (com projeção nacional e internacional) e revividos na Semana dos Baleeiros.

O bote baleeiro é, incontornavelmente, um dos mais importantes vestígios materiais do património baleeiro e da cultura da baleação. Inspirados na herança norte-americana os açorianos produziram um novo modelo de bote baleeiro, mais comprido e melhor adaptado às condições de navegabilidade dos nossos mares e ao modelo de baleação costeira e artesanal que se praticou nas ilhas dos Açores.

Resultado da capacidade criativa e do génio inventivo dos primeiros grandes construtores navais açorianos, o bote baleeiro açoriano, no entender de muitos especialistas, “a mais perfeita embarcação que alguma vez sulcou os mares”, é um misto de robustez, elegância, eficácia e singularidade.

A atividade da caça à baleia marcou de forma indelével o carácter e o modo de estar de muitos açorianos, abrindo os horizontes das ilhas para o continente norte-americano, fator determinante no nascimento da diáspora açoriana nos E.U.A. e Canadá.

Com o seu termo, ditado por fatores económicos e ambientais, nos finais dos anos 80, do séc. XX, ficou um valioso património de saberes, ao qual está associado um não menos valioso património material, constituído pelas embarcações baleeiras (botes e lanchas de reboque) e a sua palamenta e pelos edifícios e maquinaria que em terra deram corpo às atividades ligadas à baleação.




Caça à baleia


Medalhas comemorativas
Baleação no Pico


1988 - Inauguração do Museu dos Baleeiros no Pico

1994 - Inauguração do Museu da Industria Baleeira
de São Roque do Pico
1994 - Semana dos Baleeiros


1998 - 10º aniversário do Museu dos Baleeiros

Fotografias e Postais


Ilha do Pico

1910 - Ilha do Pico
1910 - Ilha do Pico
1910 - Ilha do Pico
1910 - Ilha do Pico
1910 - Ilha do Pico
1910 - Ilha do Pico
1910 - Ilha do Pico
1910 - Ilha do Pico
1910 - Ilha do Pico
Ilha de São Miguel (Postal)
Ilha de São Jorge (Postal)
Ilha das Flores